Receio com fraqueza da economia pode levar EUA a nova recessão
O risco de uma recessão de duplo mergulho não se atenuou, nem mesmo depois que surgiu a notícia de um imenso pacote europeu de resgate em resposta à crise da dívida grega.
Os mercados mundiais passaram por uma alta inicial, quando do anúncio do plano de resgate de quase US$ 1 trilhão, mas depois caíram. No entanto, como acautelou o economista John Maynard Keynes muito tempo atrás, reações de mercado como essas são como "um concurso de beleza" - os investidores tentam prever a reação em curto prazo que outros investidores acreditam ainda outros investidores possam vir a ter.
Em outras palavras, esses concursos de beleza não deveriam ser aceitos como uma resposta profunda a mudanças fundamentais na economia.
A verdade é que existe risco real de uma recessão de duplo mergulho, ainda que não seja possível quantificá-lo com base nos modelos estatísticos que os economistas usam para suas projeções. Em lugar disso, o perigo deriva da fraqueza e vulnerabilidade do sentimento de confiança -e seu declínio pode derrubar os mercados, agravar ainda mais a instabilidade dos balanços e resultar em cortes no consumo, investimento e nos gastos dos governos locais.
Em última análise, o risco reside em larga medida na psicologia social. É o medo ao medo em si, tema de um famoso discurso do presidente americano Franklin Roosevelt.
De 2007 a 2009, existia preocupação generalizada quanto ao perigo de uma depressão econômica, mas esse susto está passando. Da metade de 2009 para cá, ele foi substituído por uma preocupação mais amena quanto a uma possível recessão de duplo mergulho, como sugere a contagem de buscas na Web por esses termos revelada pelo serviço Google Insight. E com o recente medo de depressão ainda presente em nossas memórias, a sensibilidade do público a um novo período de queda continua forte.
É certo que muitos economistas duvidam da possibilidade de uma recessão de duplo mergulho. Um dos motivos talvez esteja no fato de que os Estados Unidos acabam de registrar três trimestres sólidos de crescimento real em seu Produto Interno Bruto (PIB).
No passado, quando o PIB ponderado de acordo com a inflação se recuperava de uma queda e registrava três ou quarto trimestres de alta, nunca houve uma ocasião em que tivesse voltado a cair de imediato -pelo menos não desde que as estatísticas trimestrais sobre esse indicador começaram a ser divulgadas, em 1947.
Por isso, assim que o PIB ganha ímpeto dessa maneira, é difícil que qualquer coisa venha a reverter a recuperação. E há fatores de encorajamento, como a manutenção das taxas baixas de juros, a baixa relação entre estoques e vendas e o crescimento atenuado no número de casas novas e de bens de consumo duráveis -o que sugere que a demanda acumulada e reprimida pode conduzir a um aumento de vendas.
Mas o que os analistas cujo trabalho se concentra nos próximos quatro trimestres podem estar desconsiderando são as preocupações reais que muita gente guarda quanto à economia.
Emprego uma definição de recessão de duplo mergulho que não enfatiza o curto prazo. Em lugar disso, eu a entendo como iniciada por uma recessão na qual o desemprego sobe a um patamar elevado e depois se reduz em ritmo decepcionantemente lento. Antes que o emprego retorne ao normal, acontece uma segunda recessão. Enquanto a recuperação econômica não estiver concluída, existe uma recessão de duplo mergulho, mesmo que transcorram três anos entre os dois períodos de declínio.
Com base nessa definição, se pode dizer que houve apenas uma recessão de duplo mergulho nos últimos 100 anos -e foi de fato muito séria. Começou com a recessão de 1929/33 e depois foi seguida pela recessão de 1937/8. Entre os dois períodos de declínio, o índice de desemprego dos Estados Unidos jamais ficou abaixo dos 12,2%. Essas duas recessões, separadas por quatro anos, são hoje entendidas como parte de um mesmo evento, a Grande Depressão.
Muitos fatores negativos persistiram no intervalo entre a primeira e a segunda recessão. O principal deles foi o senso generalizado de que havia algo de errado com a economia. Existia uma sensação de incerteza que desencorajava o espírito empresarial, o crédito e o consumo e, o mais importante, a contratação de trabalhadores.
Temos de enfrentar problema semelhante hoje, ainda que menos extremo. Muitos de nós continuamos perturbados por imagens que impedem o retorno do nível normal de confiança - imagens dos tumultos em Atenas, ou dos operadores de mercado financeiro americanos atônitos diante da queda de quase 10% nos mercados de ações em 6 de maio. E se o vazamento de petróleo no poço da BP não for contido em breve e terminar por arruinar a economia na região do Golfo do México, precisaremos acrescentá-lo à lista, igualmente.
Considere a queda nas bolsas em 6 de maio. Ainda que a tendência se tenha revertido rapidamente, despertou temores de instabilidade, e isso pode influenciar a atmosfera econômica e retardar a recuperação pós-recessão -possivelmente até que uma nova recessão aconteça.
Existe um exemplo histórico semelhante. Em 11 de setembro de 1986, o índice de ações americano Standard & Poor's 500 caiu em 4,8%, o que na época representava a maior queda diária desde 21 de abril de 1933. Isso fez com que o público recordasse a Grande Depressão, ainda que o declínio tenha sido revertido em apenas duas semanas. O New York Times atribuiu a grande queda a uma combinação de "ansiedade e operações direcionadas por computadores", em referência a programas automatizados de transações que geraram imensas vendas.
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