Empresas brasileiras interessadas pelo Irã
Alheias à discussão sobre sanções contra iranianos, empresas brasileiras buscam acesso a um mercado de 70 milhões de pessoas.
O Brasil e os Estados Unidos ainda não se entendem sobre o tratamento a dispensar ao Irã. Os americanos querem apoio às sanções econômicas contra os iranianos por temerem que o programa nuclear do país do presidente Mahmoud Ahmadinejad possa ter como objetivo a produção de armas atômicas – o que motivou a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, a insinuar, em visita ao Brasil há pouco mais de um mês, que o País é “ingênuo” nessa questão. O governo brasileiro, por sua vez, diz que prefere manter relações em seus próprios termos. Nesta semana, pequenas, médias e grandes empresas brasileiras estarão no Irã – e, alheias à discussão, dizem que querem mesmo é ganhar dinheiro com os iranianos.
Pouco mais de 80 companhias brasileiras estarão na missão empresarial Irã, Egito e Líbano, que começa nesta segunda-feira, dia 12, e se estende até a próxima sexta-feira. O iG consultou quase uma dezena delas, e todas disseram que, independentemente das divergências entre os EUA e o Brasil, o que conta nessa missão é a possibilidade futura de mais dinheiro no caixa e de acesso a um mercado consumidor de cerca de 70 milhões de pessoas.
“Uma coisa é relação política. Outra, são bons negócios que a região pode oferecer às empresas brasileiras”, afirma Vinícius Leone, gerente comercial da paulistana Leone Equipamentos Automotivos. A companhia, que já possui um representante comercial em Omã, vai participar pela segunda vez de uma missão no Oriente Médio. "Queremos agora um representante dos nossos negócios no Egito", afirma.
Assim como a Leone, que fornece equipamentos para manutenção de veículos e máquinas industriais, a WK, de Curitiba, especializada na exportação de artefatos de madeira usados em casas, como portas, também estará presente pela segunda vez na região. Segundo Igor Kaufeld, sócio-proprietário da companhia, a ideia é fomentar os negócios que a WK já possui no Oriente Médio. Hoje, metade do faturamento da empresa provém da região.
Algumas empresas sequer têm ainda um plano claro sobre como atuar no Irã ou em outros países do Oriente Médio. Isso não as impede, no entanto, de também vislumbrarem novas possibilidades de negócios. "Estamos indo por curiosidade por esse mercado. Queremos descobrir com quem podemos manter relações comerciais", afirma Túlio Galhano, diretor-presidente da Atitel, empresa mineira especializada em tecnologia da informação.
Argumento semelhante tem Martin André Hepp, gerente comercial da Industrial Pagé, fabricante de equipamentos para armazenagem, transporte e beneficiamento de grãos de Araranguá (SC). "Pretendemos abrir novas fronteiras comerciais e expandir nossos negócios com a exportação", disse.
Em princípio, a Atitel e a Industrial Pagé vão estudar possibilidades de negócios no Irã e nos outros países que serão visitados pela missão. Se esses negócios se concretizarem, elas podem engordar um fluxo de comércio que tem se mostrado crescente. Em 2009, ano de crise financeira global, os embarques brasileiros para o Irã totalizaram US$ 1,2 bilhão, montante 7,4% maior que o do ano anterior. As exportações para o Líbano e para o Egito cresceram 13% (para US$ 310 milhões) e 2,5% (para US$ 1,4 bilhão), respectivamente.
Os dados contrastam com o resultado total do comércio exterior brasileiro no ano. As exportações do País recuaram 22,2%, a maior queda de um ano a outro desde 1950. Os embarques somaram US$ 152,2 bilhões.
A missão será composta por nomes de peso, como Usiminas e Cemig, e também por empresas de menor porte. Tanto as grandes companhias quanto as que chegam pela primeira vez ao mercado iraniano são atraídas, entre outros fatores, por carências de infraestrutura, que abrem a possibilidade de negócios nesse segmento. A fabricante de cabos elétricos paulistana Poliron e a Engemasa, de São Carlos (SP), que fabrica peças de aço inoxidável usadas na indústria e na construção civil, estão nesse grupo.
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